Turismo sem dados não deixa rastro
Faltam dados no turismo municipal por razões estruturais: equipe sem cargo técnico, descontinuidade entre mandatos e a falta do turismólogo concursado.
Por Ana Raquel de Almeida Dias4 min de leitura

Pergunte a uma secretaria municipal de turismo quais são as dimensões e indicadores mensurados e quais estratégias foram praticadas com base em evidências. Na maioria dos municípios brasileiros, essas perguntas ficam sem resposta. O problema não é falta de ferramenta. É falta de estrutura, e ela tem duas causas que se repetem de norte a sul: equipes sem capacidade técnica e descontinuidade entre mandatos. As duas convergem para uma mesma ausência, a do turismólogo concursado.
Realidade: promover muito, medir nada
O padrão é reconhecível. O município investe em evento, sinalização e divulgação, e justifica cada gasto com a frase que não prova nada: “movimentou a cidade”. Sem linha de base, não há como saber se movimentou mais que no ano anterior nem se o mesmo recurso renderia mais em outra ação. As consequências são concretas: o diagnóstico pedido não existe, o orçamento é indefensável na hora do corte, e as políticas são sucesso no discurso e incógnita na prática.
Nem sempre é desinteresse do gestor. Muitas vezes é pior: do jeito que está montado, o sistema municipal de turismo não premia quem mede.
A equipe que não tem como fazer
Boa parte das secretarias e diretorias de turismo opera com dois ou três servidores acumulando evento, atendimento, articulação com o trade e prestação de contas. Não há estatístico, não há analista e, com frequência, não há um único cargo técnico de turismo no organograma.
Nessa configuração, mensuração vira tarefa de quem sobrar tempo. E nunca sobra, porque coleta de dados é trabalho contínuo e invisível, o oposto do evento que rende foto.
O mandato que apaga a memória
Secretário de turismo é, via de regra, cargo de livre nomeação. Troca a gestão, troca o secretário, e com ele saem o diretor, o assessor e qualquer projeto que carregue a marca do antecessor. A pesquisa iniciada não se repete, a série histórica se interrompe e a planilha com três anos de dados fica no computador de alguém que não trabalha mais lá.
Dados turísticos só valem em série. Uma medição isolada é fotografia; planejamento exige filme. A cada ruptura, o município volta à estaca zero, competindo com destinos que acumulam há vinte anos.
A raiz comum: o turismólogo que não existe no quadro
A profissão de turismólogo é reconhecida em lei desde 2012 (Lei nº 12.591/2012). Ainda assim, concurso público municipal para o cargo é raridade, e o turismo acaba sendo, em muitos municípios, a única pasta sem servidor de carreira da própria área. Saúde tem médico concursado, educação tem professor, obras tem engenheiro. Turismo tem quem a gestão do momento indicar.
Essa é exatamente a figura que falta nas duas causas anteriores. O turismólogo de carreira é a capacidade técnica permanente que a equipe não tem e a ponte entre mandatos que a descontinuidade destrói: permanece quando o secretário muda, carrega a série histórica e faz a transição de governo ser passagem de bastão em vez de demolição.
Criar o cargo tem custo e esbarra em limite fiscal, e o argumento é legítimo. Mas a ausência também custa: cada edital perdido, cada pesquisa paga duas vezes porque a primeira se perdeu, cada trabalho recontratado para refazer o que já existia. Esse desperdício não aparece em relatório nenhum justamente porque ninguém o mede.
O que fazer sem esperar o concurso
Quatro movimentos blindam a gestão do turismo contra a própria descontinuidade:
- Institucionalizar por norma: criar por decreto ou lei municipal o sistema de informações ou o observatório. Estrutura instituída sobrevive a secretário; projeto de gestão, não.
- Tirar os dados das pessoas: repositório institucional, documentado e acessível, nunca o computador ou o e-mail de um servidor.
- Dar ao COMTUR o papel de guardião: o conselho atravessa mandatos, e pautar os indicadores em reunião periódica cria cobrança social pela continuidade.
- Usar tecnologia para baratear a permanência: processos automatizados e documentados dependem menos de qualquer pessoa específica.
Nenhum desses movimentos substitui o servidor de carreira. Eles reduzem o dano até que ele exista.
O incômodo que fica
O turismo municipal brasileiro não sofre de falta de potencial; sofre de amnésia institucional. Enquanto medir for tarefa de quem sobra e memória for propriedade de mandato, o setor seguirá disputando orçamento apenas com discurso. A solução cabe em norma municipal e começa com uma decisão que qualquer gestão pode tomar amanhã: a de que os dados do turismo pertencem ao município, não ao governo da vez.
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Referências
Brasil. (2008). Lei nº 11.771, de 17 de setembro de 2008. Dispõe sobre a Política Nacional de Turismo. Presidência da República. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11771.htm
Brasil. (2012). Lei nº 12.591, de 18 de janeiro de 2012. Reconhece a profissão de Turismólogo. Presidência da República. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12591.htm
- gestão municipal do turismo
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